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Mostrando postagens com o rótulo Crônicas

Nem todos os negros, são negros

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Almoçava no restaurante da empresa. O de sempre, alface, tomate, carne, arroz e feijão. Estava saboroso e entre uma garfada e outra alguém reclamava da empresa ou do setor. O assunto estava cansativo. Todos os dias, nos perdíamos na mesma “chorumela”. Resolvi falar um pouco da palestra que assisti sobre o Dia da Consciência Negra, na sede da OAB em Belo Horizonte. Nesse momento, um amigo pergunta-me o que eu achava das propostas de Fernando Holiday: combate ao vitimismo, fim das cotas raciais e revogação do dia da Consciência Negra. Surge, em minha mente, a passagem do livro “Um Defeito de Cor”, da escritora Ana Maria Gonçalves. Na obra, ela ressalta a pele retinta dos carcereiros nos tumbeiros. Pretos escravizando e vendendo pretos. Automaticamente, me lembro das aulas sobre o projeto escravocrata brasileiro, no qual capitães do mato e feitores também eram negros. O primeiro “ganhava a vida” caçando escravos que ousavam fugir e buscar a liberdade. O último era o braço do ...

Pijamão, a rosa e o ventilador

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Sr. Carlos, ou “Seu” Carlos, estava na janela de seu apartamento. O dedo indicador da mão esquerda estava sobre a boca e o nariz, enquanto o dedão apoiava o queixo. Para sustentar e manter o cotovelo na altura das costelas, ele usava a mão direita em forma de cuia. Já estava de pijamas, azul claro, limpos e cheirando a amaciante. Ah! o capacete com viseira de policarbonato estava na cabeça. Não era importante saber o que significava o “poli”, muito menos o “carbonato”. O vendedor assegurou que a lente era inquebrável. Os tiros de borracha da tropa de choque seriam incapazes de cegá-lo, como acontecera com uma garota na semana passada. Com interesse, acompanhava os protestos na avenida abaixo, quando a primeira bomba de efeito moral, lançada pela polícia, explodiu. Em poucos segundos, novas bombas. A fumaça irritante do gás lacrimogêneo dispersava a multidão de manifestantes que haviam feito uma barreira com pneus em chamas. Alguns, mais resistentes e ousados, talvez, um pou...

Dois heróis

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Ana Maria Gonçalves invoca no prologo de “Um Defeito de Cor”a palavra: serendipidade, descoberta ocasional, o que descobrimos por acaso. É de “Outras Rosas” à “O Topo da Montanha” que passo por uma nova descoberta, assim, sem querer. “Eu não penso que deveria ter que me levantar”, texto de Anderson Feliciano apresentado na 5ª Janela Dramatúrgica, foi o começo de um encontro, a mim nunca anunciado. Uma frase que poderia ser dita com um grito, mas que no meio-silêncio, é aterradora. Ela trouxe-me o feito de Rosa Parks, a mulher negra que em 1° de dezembro de 1955, cidade de Montgomery (Alabama ), recusa-se a ceder o lugar em que estava sentada em um ônibus para um homem branco. O ato foi um desafio ao sistema de apartheid vivido no tão idolatrado EUA. Deixei o teatro com uma constatação. Estava muito longe de conhecer as personalidades negras que lutaram por nós. Ignorante eu estava e continuei. Não fui atrás de descobrir mais sobre essa mulher. Dias depois, encontro...

Verdade absoluta!

Certa vez escutei que alguma coisa por mil vezes dita, tornava-se verdade. Entretanto, ao me deparar com o dramaturgo e escritor italiano Luigi Pirandello, esse conceito se desconstruiu. Basta dizermos uma única vez, para nós mesmos. Deixando meus escrúpulos de lado, tentei buscar algo que pudesse desmentir o dito popular e o escritor. Perguntei a uma amiga se ela conhecia algo que todos concordavam que era verdade. Algo que poderíamos chamar de “realidade absoluta”. Eis que ela me confronta dizendo: “O céu é azul”. Que nada! Uma pessoa sofredora de daltonismo, possivelmente, não enxerga o céu como azul. Voltei meu olhar para as discussões futebolísticas. Um jogador recebe a bola em posição duvidosa e balança as redes (Goollllll). Comemora, mas seu regozijo torna-se frustração quando percebe, na lateral do campo, o assistente de árbitro com a bandeira erguida. Inúmeras verdades, eu vejo aqui. A do goleador que reclama, a do bandeira, do juiz e dos milhares de torcedores que gri...

Reflexões sobre a loucura

Assistir ao filme “Nise - O coração da Loucura” me fez pensar um pouco sobre a loucura ou a normalidade do mundo. Todos os dias, levantamos, tomamos um café regado a pão e margarina, como se nossas vidas fossem como os comerciais da Qualy. Algumas pessoas não têm direito a nem isso. Vão para a lida somente com um pingado. São cerca de 12 a 14 horas longe de casa, preso dentro de um escritório, uma oficina, atrás da barraca de fruta, vendendo nossa força de trabalho, sabe-se lá para quem. Sabemos sim, para S.A, LTDA ou alguém que nem o nome nós conseguimos pronunciar. Ao fim do dia, voltamos para nossos lares, ligamos a TV e assistimos ao jornal e a novela. Temos a certeza do dever cumprido e que contribuímos para a riqueza do país. Esse é o resumo de nossas vidas diárias, normais, alienandas e meritocráticas. Eis que surgem aqueles que desafiam essa lógica. Essa normalidade e naturalidade mórbida que nos conduz ao paraíso. Pessoas que a ciência, as religiões ou quaisq...

As Sufragistas

Não tenho a intenção aqui de avaliar o filme “As Sufragistas”, que assisti no fim de janeiro. Esse trabalho, o deixo para os críticos cinematográficos. Gostaria colocar em debate a relevância do tema para nós, brasileiros em pleno século 21. O movimento sufragista consiste na luta das mulheres pelo direito ao voto. Isto é, direito às mulheres de participarem ativamente da sociedade e com o seu poder de decisão contribuir para a condução da mesma. No Brasil, as mulheres conquistam o direito ao voto em 1932. Na França, as mulheres passaram a votar amplamente apenas em 1944 e na Suíça, 1971. Ressalto que, ainda hoje, há países no mundo que não permitem o voto de mulheres. O filme retrata como o voto não consiste em um simples fato de ir às urnas e escolher. É o rompimento da mulher com o mundo machista e opressivo. É a luta por igualdade de direitos oportunidades de instrução e igualdade de salário. A pergunta que faço é: em 2015, temos uma sociedade igualitária? Noss...

Banalização as redes sociais

Ferreira Gullar algum tempo atrás escreveu como a TV se postava como única responsável e fonte verdadeira da informação. Talvez, nos dias de hoje, aquela crônica, da qual não me recordo o título abarcaria as redes sociais. Facebook, You Tube, Istagram, Google+, Twitter, Wattzap, dentre muitas outras opções absorvem o nosso tempo e mente em uma avalanche de informações minuto a minuto. Talvez, até mais rápido que isso. Estamos conectados praticamente vinte quatro horas por dia. Almoçamos, jantamos, tomamos até banho com o celular perto, simplesmente para não perder aquela mensagem importantíssima que poderá chegar a qualquer momento. E não é que ela chega? Chegam mensagens a todo instante. Mensagens e notícias desimportantes, enfadonhas, vexatórias, descartáveis, muitas vezes mentirosas. Entretanto, não conseguimos abrir mão delas. Lemo-las e sorrimos com nossa falta de assunto. Para completar o circulo vicioso da droga, compartilhamo-las. Não precisamos abrir mais um ...