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  • Filipe Lutalo

Zona de Combate: elementos cyberpunks e uma reflexão sobre a guerra

Zona de Combate (título original Outside The Wire). Direção de Mikael Håfström. Estados Unidos / Hungria: Netflix, 2021. VOD (114 min.), son., colorido.


Lançado em 2021, Outside The Wire recebe no Brasil o título de Zona de Combate. A sua produção e distribuíção é feita pela plataforma de streaming Netflix. O roteiro é de Rob Yescombe e Rowan Athale. A direção é de Mikael Håfström e a película é estralada por Anthony Mark (Leo) e Damson Idris (Harp). O filme, classificado pela plataforma como Ação e aventura, Ficção Ciêntifica e fantasia e; Cyberpunk, é um longa-metragem de 114 min de duração.

Reprodução.


Mikael Håfström, o diretor do filme, nasceu em 1 de julho de 1960 em Lund, Skåne län, Suécia. Escritor e diretor, seus principais trabalhos são: Evil: Raízes do Mal (2003), 1408 (2007) e O Ritual (2011). (IMDb)


A sinopse apresenta o filme de forma direta e superficial, buscando atrair a atenção do público: “Em um futuro próximo, um piloto de drone e um androide ultrassecreto trabalham lado a lado no campo de batalha para evitar um ataque nuclear”. (NETFLIX, 2021)


Harp, interpretado por Damson Idris, é um piloto de drone que atua em uma guerra no Leste Europeu no ano de 2036. Tropas americanas posicionam-se no território para uma missão de paz. Nesse local ausente da força do estado e sucumbido aos horrores da guerra, Viktor Koval e sua milícia terrorista opõe-se aos americanos. Com a expansão do poder de Koval, o Pentágono coloca em campo, pela primeira vez, soldados robóticos chamados GUMP.


A película se inicia com um grupo de soldados americanos surpreendidos por uma emboscada da milícia de Koval. A situação é tensa, pois dois soldados estão feridos no meio do fogo cruzado. O grupo pretende avançar para resgatar os feridos, porém um caminhão com um Lançador se aproxima. Harp, o piloto de drone sobrevoa a área. Contra as ordens de seus superiores, ele dispara um míssil contra um caminhão alegando que o veículo possuia um lançador e que este mataria todos os homens. Entretanto, a explosão do míssil, além de destruir o caminhão, mata os dois soldados americanos. Como punição por desrespeitar ordens diretas, Harp é enviado para o campo de batalha.


O diretor nos leva a traçar a personalidade de Harp. Jovem, imaturo emocionalmente, frio e desprovido de empatia. A todas essas características, acrescenta-se a incapacidade de obedecer a um superior. Sua frieza é demonstrada nesse primeiro set de cenas. Enquanto ele dispara o míssil, ele adoça o paladar com um pacote de balas. É como se estivesse jogando um videogame e utiliza da máxima que os fins, justificam os meios. Ele salvou a maior parte do pelotão, apesar de ter matado dois outros.


Harp personifica o anti-herói dentro da ficção CYBERPUNK. Numa guerra, como no gênero cyberpunk, a vida dos soldados tem pouco valor. Blakenship (1993, p. 4) ressalta que “a vida tem pouco valor, talvez porque haja tanto dela.” O mesmo autor comenta que “os personagens da literatura cyberpunk estão constantemente cometendo atos antiéticos, ilegais ou imorais, mas que o fazem muitas vezes por razões que definiríamos como ‘boas’.” (BLAKENSHIP, 1993, p. 5)

Fotografia: Filipe Lutalo - Capa do livro GURPS CUBERPUNK.


Harp divide o protagonismo com o Cap. Leo, interpretado por Antony Mark, um andróide de altíssima tecnologia. Ele difere dos GUMPs por ter uma inteligência autônoma, capaz de aprender e ser criativo. Seu corpo cibernético lhe permite sentir dor para que possa ser tão humano quanto os humanos. Leo também está no papel do anti-herói. Ele trabalha sozinho e quebra as regras, porém seu programa ainda o limita a responder aos humanos.

Leo incorpora o conceito de “humano, demasiado androide – Androide, demasiado humano”, criado e expandido por Amaral. Ele possui uma forma física musculosa, saudável e um rosto bonito e confiável.A presença de androide com aparência humana é recorrente nas mídias cyberpunk. Apesar de existir um

… desdém em relação ao físico, uma fascinação com as formas pelas quais a carne é irrelevante comparada com a memória, o corpo ainda aparece como figura importante, seja através de suas modificações, implantes ou extensões. (AMARAL, 2006)

As tecnologias implementada em Leo torna-o mais humano que os humanos. Ele não possui um corpo orgânico, porém, possui sentimentos, é debochado, exerce a empatia e tem uma visão da guerra que Harp não possui, por estar escondido atrás da fria tela de piloto de drones.


Assim que Harp chega ao cenário de guerra, ele é hostilizado pelos companheiros daqueles soldados assassinados por ele. O personagem é surrado por vários homens brancos. Harp é avisado que o Cap. Leo, também negro, não é como eles, o que nos leva a ponderar. Harp é negro e não é bem-vindo, Leo é negro e não é como “eles” (os soldados humanos), isso define que Harp também não é igual aos soldados brancos. Há um preconceito destinado aos GUMPs, a Leo (o androide) e a Harp (o piloto assassino). Essas três figuras também metaforizam a figura do “Outro” e do racismo.


Fanon (2008, p. 180) destaca que o homem só torna-se humano quando é reconhecido pelo outro. É “do reconhecimento por este outro que dependem o seu valor e sua realidade humana. É neste outro que se condensa o sentido de sua vida”


No estudo do unbuntu, Noguera (2011, p. 148), explora a “máxima zulu e xhosa, umuntu ngumuntu ngabantu (uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas) indica que um ser humano só se realiza quando humaniza outros seres humanos.”


Podemos observar que há uma desumanização de Harp e Leo. O primeiro é um criminoso, o segundo um androide. Essa condição pode ser encontrada durante a Segunda Guerra Mundial, onde soldados afro-americanos também são desumanizados e tem a sua competência contestada.

Fotografia: Reprodução. National Archives and Records Administration, catalogada sob o identificador ARC (National Archives Identifier) 535763.


Mais de um milhão de afro-americanos lutaram contra as forças nazistas, entretanto sofriam uma grande segregação dentro das forças armadas. (Enciclopédia do Holocausto). O 99º Esquadrão, Tuskegee Airmen, contou com 33 e 27 aeronaves no início das suas operações. Apesar de serem reconhecidos por terem realizados centenas de escoltas aéreas e nunca terem perdido um avião bombardeiro,

Um ano antes de encerrar-se o conflito, O Senador McCloy, assistente da Secretaria da Guerra, foi incumbindo de coordenar a comissão de estudos sobre o desempenho dos tuskegees. As discussões aconteceram em sigilo, uma vez que havia o temor da reação e pressão da comunidade negra.
Os depoimentos dos membros propunham uma suposta inferioridade dos pilotos negros em comparação com desempenho dos brancos. Pontos de vistas apoiados em estudos de caráter antropológicos com vieses racistas. Com isso a intenção era a de manter a segregação na Força Aérea. (LEÃO, 2015)

Nossos anti-heróis são párias que precisam provar o seu valor. Harp precisa mostrar que arrependeu de seu erro e Leo ser reconhecido como algo mais que uma simples inteligência artificial.


Harp e Leo vão para o campo para encontrar o terrorista Koval. Eles descobriram que o terrorista pretende encontrar a chave capaz de disparar vários misseis atômicos contra as principais cidades do mundo, o que aniquilaria milhões de pessoas.


Essa busca constitui a jornada do herói para Harp. Na sua vivência nos campos de refugiados e nos diálogos com o Cap. Leo e com a líder da resistência Sofiya, Harp aprende a se importar e a confiar nas pessoas, mas a jornada não está completa.


A reviravolta do filme é quando Harp descobre que Cap. Leo o enganou. O androide desenvolveu uma autonomia e assumiu o plano de Koval. Ele descobriu que o próximo passo das forças armadas americanas é de intensificar a utilização de androides na guerra. A guerra perpetuará e com ela, toda a sua cadeia de mortes e riquezas envolvidas. Leo se opõe aos planos capitalistas. Ele assume o plano de disparar os misseis para provar ao mundo que as máquinas são perigosas e que a guerra precisa ter um fim. Harp confronta com o seu espelho, configurado na insubordinação de máquina em relação aos humanos.


Recomendo o filme pelas reflexões que levanta e por se aproximar da ideologia cyberpunk. O androide, mais humano que humano, uma discussão sobre o uso das máquinas, a frieza e falta de empatia humana, o racismo velado. Definitivamente, Zona de Combate comunica com o gênero cyberpunk. Como em Blade Runner, uma máquina surge para ensinar a nós, seres humanos, que nos tornamos a destruição de nossa própria espécie e somos motivados por objetivos mercantilistas e mesquinhos.


Fotografia: Divulgação NETFLIX. Duas máquinas. À esquerda o androide Cap. Leo. acompanhado de um GUMP.


Referencias bibliográficas:

AMARAL, Adriana da Rosa. Visões Perigosas: para uma genealogia do cyberpunk. Os conceitos de cyberpunk e sua disseminação na comunicação e na cibercultura. UNIrevista, v.1, n° 3, jul./2006.


IMDb. Zona de Combate (2021). Disponível em: https://www.imdb.com/title/tt10451914/. Acesso em 15 fev. 2021.


BLAKENSHIP, Loyd. GURPS CYBERPUNK: roleplaying de alta tecnologia. Tradução Jonas D’Abronzo. São Paulo: Devir, 1993.


ENCICLOPÉDIA DO HOLOCAUSTO. SOLDADOS AFRO-AMERICANOS DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL. Disponivel em: https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/gallery/african-american-soldiers-during-wwii. Acesso em 15 fev. 2021.


FANON, Frantz. Pele Negra Mascaras Brancas. Tradução Renato da Silveira. Salvador. EDUFBA, 2008.


LEÃO, Sionei Ricardo. Políticas afirmativas e forças armadas nos EUA. Portal Géledes.Disponível em: https://www.geledes.org.br/politicas-afirmativas-e-forcas-armadas-nos-eua/. Acesso em 17 fev. 2021.


LEMOS, André. FICÇÃO CIENTÍFICA CYBERPUNK: o imaginário da cibercultura. Conexão. Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 3, n. 6, p. 9-16, 2004.

NETFLIX. Disponível em: https://www.netflix.com/search?q=zona%20de%20combate&jbv=81074110. Acesso em 12 fev. 2021.


NOGUERA, Renato. UBUNTU COMO MODO DE EXISTIR: elementos gerais para uma ética afroperspectivista. Revista da ABPN, v. 3, n. 6, nov./2011 – fev./2012.

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